O Saxofone na Música Popular Brasileira

January 9, 2016

O projeto de extensão O saxofone na Música Brasileira é voltado para saxofonistas profissionais, amadores e para o público em geral. Tem como foco apresentar um panorama do saxofone na música popular brasileira, incluindo gêneros como choro, frevo, samba, jazz, bossa nova, música instrumental, tratando das transformações estéticas sofridas nestes gêneros, apresentando seus principais compositores e instrumentistas.

 

O objetivo deste encontro é de apresentar o contexto histórico da introdução do saxofone no Brasil e a importância do instrumento e de seus interpretes nos processo de consolidação de diversos gêneros de música popular, além de desenvolver a leitura e a interpretação musical. A presença nas atividades do curso é livre e aberta a comunidade, quem tiver interesse em assistir as atividades do curso podem se inscreverm na hora, mesmo que não possuam o instrumento. 

 

O saxofone

 

O saxofone foi concebido como uma família de instrumentos de sopro, orquestrais e de banda militar, inventada pelo belga construtor de instrumentos de sopro Adolphe Sax na década de 1840. Criados em um corpo de metal, esses instrumentos são fruto dos experimentos do inventor com o clarinete baixo, modificado pelo tubo cônico a maneira do oboé, preservando contudo a embocadura simples de apenas uma palheta, igual ao clarinete. Seu dedilhado foi inspirado no sistema criado 10 anos antes pelo alemão Theobald Boehm, inventor da flauta transversa moderna.

 

O saxofone veio a ser conhecido no Brasil apenas em 1885, através de José Freire, que executava no saxofone valsas em tom menor com o acompanhamento de instrumentos de corda e de metal. Naquela época já existiam no Brasil músicas compostas especialmente para o instrumento, tais como "Tango Batuque" ou "Turuna" de Luciano Gallet. Desde sua criação até a década de 1960 o saxofone permaneceu como um instrumento de ligação entre as madeiras e metais das bandas militares. Aos poucos novos adeptos do saxofone foram aparecendo e popularizando o seu som através dos solos, principalmente pela facilidade de seu dedilhado em relação ao clarinete e ao oficleide,  pois apresentava uma afinação mais precisa e um som mais brilhante que atendia as demandas timbrísticas dos instrumentistas e compositores modernos.Com a solidificação do choro como gênero, à partir do século XX o saxofone começou a ser utilizado como instrumento de solo, tanto em gravações como apresentações. 

 

 

Os pioneiros

 

O saxofone só veio a ser conhecido e apreciado como instrumento solista no choro à partir do séc. XX. O primeiros chorões que utilizaram o saxofone foram:

 

André Vítor Correia, André Saxofonista (1888-1948) - André era funcionário da Imprensa Nacional, compositor de marchas-rancho, choros e sambas. Participou ativamente de ranchos no início do século, foi diretor de harmonia do rancho Ameno Resedá (1925) para qual compôs várias marchas. Trocou a clarineta pelo saxofone, na época em que dirigiu uma Jazz-Band, é autor do conhecido choro André de sapato novo de 1947, sua composição mais importante.

 

*  André de sapato novo (André Victor Correia) Gravação feita por Pixinguinha e Benedito Lacerda (1947)

 

Romeu Silva (1893-1958) - Funcionário dos correios tocava saxofone no rancho de Ameno Resedá, na orquestra da sociedade dançante carnavalesca Ninho do Amor, e foi diretor de harmonia e líder da orquestra do rancho Flor do Abacate onde tocou em 1913. Dez Anos depois formou a sua própria orquestra o Jazz-band Sul -Americana, tocando em festas cabarés e na sala de espera do cine Palais. Em 1924 gravou pela primeira vez dois maxixes intitulados, Tênis Clube de Petrópolis de (Silvio de Sousa) e Lolote Estrilando (Mario Silva). É descrito no Livro de Alexandre Gonçalves Pinto como "Hoje um maestro, um interprete das nossas músicas no estrangeiro, razão porque tornou-se admirado e considerado celebridade pelo seu talento musical e patriotismo consumado, fazendo sobressair com vantagens pelos mundos civilizados, tudo que é nosso. O seu saxofone tem a magia da melodia, ele é um habilitadíssimo diretor de Jazz-band". Compôs dois maxixes  Tricolor e Se papai souber que foram gravados pelo grupo de Pixinguinha, os Oito Batutas, em Buenos Aires quando foram excursionar em 1923. Nesta gravação Pixinguinha utiliza-se pela primeira vez do saxofone tenor dado a ele pelo milionário Eduardo Guinle em Paris.

 

* Tricolor, Romeu Silva, Maxixe, Pixinguinha (Sax Tenor) os Oito batutas, 1923 Vitor.

 

O Grupo Sulferino (1910 - 1920) De formação e estilo semelhante ao Terror dos Facões do compositor gaúcho Otávio Dutra,  gravou alguns títulos para a Casa Elétrica de Porto Alegre tendo como solista convidado Luiz Americano. O repertório variava entre tangos e choros, e segundo a pesquisadora Luana Santos foi formado para atender as demandas fonográficas solicitados por Gustavo Figner da Casa Edson de São Paulo, pois a pesquisadora não encontrou sinal da trajetória do grupo no cenário musical porto-alegrense.  

 

* Carinhos Santos - (Romeu Silva) Grupo Sulferino para Casa Elétrica Porto Alegre 1917. 

 

Severino Rangel de Carvalho, o Ratinho (1896-1972) - Nasceu em Itabuna, na Paraíba no dia 13 de abril de 1896. Ganhou o apelido, devido a sua insistência em tocar a polca Rato-Rato no pistom. Ratinho, desde a infância, demonstrou profunda inclinação musical, gostava de fazer instrumentos musicais com pedaços de pau, lata ou qualquer outro material que pudesse ser utilizado. Observando a sua tendência musical seus padrinhos o incentivaram a entrar para a banda local, a Euterpre Itabaianense, em Itabaiana. Começou no tarol, instrumento de percussão com o qual não se identificou, então pediu ao mestre de banda que lhe ensinasse outros instrumentos, recebeu então um saxofone, cuja escala aprendeu em um dia. Aprendeu outros instrumentos de sopro como o pistom, durante dez anos, mas acabou mesmo tocando o saxofone soprano no qual foi considerado um dos melhores. Já em Recife começou a tocar profissionalmente, atuando ao mesmo tempo como oboísta na Orquestra Sinfônica e saxofonista na orquestra de frevo com compositor Nelson Ferreira.

 

Em 1919  conheceu José Luiz Rodrigues Calazans (1896-1977),o Jararaca,  com quem depois formaria a dupla sertaneja Jararaca e Ratinho, de enorme sucesso na rádio. Os dois fizeram parte do Bloco dos Boêmios, que deu origem aos Turunas Pernambucanos. Segundo Sérgio Cabral em seu livro Pixinguinha, vida e obra, a Cidade de Recife recebeu em julho de 1921 Pixinguinha e seu grupo os Oito Batutas. O Bloco dos Boêmios, no do qual participava Ratinho e jararaca, apresentou-se para completar o show do grupo de Pixinguinha. Pixinguinha gostou tanto dos músicos pernambucanos que além de incluir uma musica nos shows, convidou o grupo para ir ao Rio se apresentar. E assim foi, em 1922 Ratinho se apresenta no Rio de Janeiro pela primeira vez com o grupo Turunas Pernambucanos no centenário da proclamação da república, obtendo grande sucesso. Depois de uma temporada de um ano no Rio, tempo em que gravaram e tocaram bastante, o grupo parte para a Argentina e lá antes mesmo do final da temporada se dispersaram.

 

Somente em 1929 é que a dupla com jararaca assume um papel importante em sua carreira, a partir do seu trabalho de composição pioneiro em música sertaneja. Ratinho contudo não deixa de lado o saxofone, seu instrumento de criação. Em 1930, já então um sucesso na radio com a dupla, lança também discos instrumentais, gravando alguns de seus choros dentre eles o famoso Saxofone, porque choras?, que representa toda a versatilidade do choro e a nova linguagem que começava a surgir para o saxofone.

 

Segundo Alexandre Gonçalves Pinto, "Ratinho faz naquele instrumento cousa de estarrecer o público, quando apresenta-se no palco. Ninguém o imita tal a sua habilidade nos contornos que faz no mesmo. Tem um folego de admirar, pois sustenta quatro mínimas ligadas sem parar. O que toca, é sempre cheio de graça e de uma beleza impossível de descrever-se tal o seu manejo e arte". Como comenta o Animal, sua performance, no final de sua vida ainda era admirável, de alto nível musical, possuindo uma respiração fora do comum. Raramente interpretava músicas de autoria alheia. Era ao mesmo tempo intérprete e autor das melodias. Seu carro chefe Saxofone por que choras? música até hoje muito apreciada, teve o seu titulo inspirado na música de Ernesto Nazaré, Cavaquinho, porque choras?  

 

No livro de Rodrigues Calazans e Sônia Braucks, Jararaca e Ratinhoa famosa dupla caipira, encontramos algumas entrevistas feitas com importantes músicos e pesquisadores do choro com opiniões sobre o instrumentista Ratinho: 

 

Altamiro Carrilho: "Ratinho, naquele tipo de instrumento, pode-se dizer que foi o melhor do Brasil: criativo, cheio de nuances, original, o melhor estilista. Com música brasileira ninguém tocou melhor que ele o saxofone soprano. Foi um mestre. Um gênio. Não foi superado até hoje com seus sons e efeitos estranhos. É como eu o vejo"

 

Abel Ferreira: "Como instrumentista, Ratinho foi habilíssimo no saxofone soprano, embora também executasse muito bem o saxofone alto. Conseguia a perfeição nas passagens de agilidade e no staccato. Era um artista inato, totalmente liberto da partitura musical. Como compositor é maravilhoso, principalmente em Saxofone, porque choras? é a melhor de suas músicas".

 

Paulo Moura: "Nenhum saxofonista, que eu saiba, foi influenciado por Ratinho. Infelizmente. Porque foi criado um conceito de que o tipo de música que Ratinho executava era 'quadrada'. Este conceito faz com que o músico faça uma submúsica, tipo importação, enquanto a grande força da música brasileira é esta que vem do nordeste".

 

Ricardo Cravo Alvim: "Musicalmente sem dúvida Ratinho foi um dos maiores instrumentistas que o Brasil já conheceu, usando inclusive seu virtuosismo para emitir malabarismos talvez desnecessários, como aquele muito conhecido - o de sustentar a nota durante tempo alongado a fim de exibir o fôlego".

 

* Saxofone porque choras (Ratinho) Gravação feita pelo próprio em 1930 no sax-tenor.

 

 

Luís Americano (1900-1960) - Sergipano de Aracaju, é notável compositor, clarinetista e saxofonista. Aprendeu as primeiras lições musicais com o pai Jorge Americano, regente de banda na capital sergipana. Foi músico de banda militar do exercito em sua cidade. Desligando-se do exército, em 1922, data em que inicia a sua carreira como músico profissional. Em 1925, como solista de saxofone e clarineta, realiza suas primeiras gravações na Odeon para a casa Edson. Grava cinco musicas sendo três de sua autoria: Gozando a vida, Me deixa donzela e Tico Tico. Em 1927, faz o seu primeiro disco no sistema elétrico, e grava o seu choro Sentimento. Entre as gravações realizadas entre 1927 e 1932 destacam-se os dois choros de maior sucesso, Lagrimas de virgem e É do que há.

 

Após uma temporada na Argentina onde toca por 3 anos em conjuntos e orquestras, volta ao Rio de janeiro atuando em orquestras de jazz, como a American Jazz, e as de Justo Nieto, Kossarin, Raul Lipoff, Romeu Silva e Simon Boutmann. Além de gravações em discos solos, participações no grupo Velha Guarda organizado por Pixinguinha em 1932 e na Orquestra Victor Brasileira, participou de inúmeras gravações e shows atuando sempre como arranjador. Músico requisitado por seu virtuosismo no saxofone e na clarineta, destaca-se em centenas de gravações e programas de rádio acompanhando grandes intérpretes do seu tempo como Francisco Alves, Carmen Miranda e Orlando Silva.

 

Em agosto de 1940, volta a atuar com Pixinguinha no disco Native Brazilian Music, produzido pelo maestro norte-americano Leopold Stokowski no navio Uruguai, e que seria lançado depois no mercado americano pela gravadora Columbia. Nesta oportunidade Luís Americano grava como solista ao clarinete um choro seu intitulado "Tocando para você"

 

No relato de Alexandre Gonçalves Pinto registrado em seu livro O choro - Reminiscências dos Chorões Antigos, O Animal o descrevia como: " Velho e bom chorão no seu saxofone. Este instrumento na boca de Americano é de fazer embasbacar, tal a maneira que ele com facilidade sabe executar, não respeitando nem as fusas, que ele devora sem muito esforço". Realizava efeitos de grande impacto sonoro, como as gargalhadas que fazia ao clarinete, e que aparece na gravação da musica "Luís americano nas arábias". No saxofone tinha um timbre suave, sempre com um vibrato característica da época.

 

* Sentimento (Luís Americano) Gravação feita pelo próprio em 1927.

 

 

Saxofonistas da Época de Ouro

 

Inspirados por estes instrumentistas, a partir de 1940 surgiu uma nova geração de saxofonistas e orquestras que passaram a misturar a linguagem do choro com outros gêneros como o Jazz, o frevo e a bossa nova, tais como:

 

Moacir Silva - Começou a tocar o saxofone desde cedo em sua cidade natal, Conselheiro Lafaiete. Aos 17 anos mudou-se para o Rio de Janeiro com a família, onde prestou o serviço militar tocando na banda do quartel do Exército. Foi convidado logo depois a atuar em bailes suburbanos. Saindo do Exército passou a tocar em diversas orquestras, incluindo a do maestro Fon Fon, onde ficou até 1947. Foi convidado depois a tocar em diversos grupos, até formar a sua própria banda, gravando seus discos sob o pseudônimo de Bob Fleming. Em um dos discos que gravou logo de início incluía um choro que fez bastante sucesso em radio, chamado Sugestivo.

 

* Jacyra - Choro Bossa gravado pela primeira vez por Rafael Velloso no CD Sax Chorando (2005)

 

Juarez Araújo - Um dos mais incríveis solistas de saxofone, Juarez impressiona tanto pela capacidade criativa dos seus solos quanto pelas suas composições. Apesar de muitas não terem sido gravadas,    exemplificam a modernidade de sua música, que já conquistou músicos e público em diversos países por onde passou. Marcele é uma composição recente, que tem uma excelente combinação de choro e jazz afirmando suas influências.   

 

* Marcele - Choro-Jazz Ultima gravação de Juarez Araújo no CD Sax Chorando Rafael Velloso (2005)

 

Otaviano Romero Monteiro, Fon Fon – O seu choro Murmurando foi um grande sucesso em 1946, em uma das poucas gravações feitas por ele. Fon Fon montou anos mais tarde a sua própria orquestra, com arranjos próprios e uma sonoridade de naipe de metais característica. Com enorme sucesso, chegou a se apresentar em diversos países, tanto na América do Sul quanto na Europa. Em Londres, gravou um LP com essa orquestra.

 

* Murmurando - Choro gafieira gravado por Rafael Velloso no CD Sax Chorando (2005)

 

Sebastião Barros, K-Ximbinho - Atuou em várias orquestras, incluindo a Tabajara, de Severino Araújo, onde participou do naipe de saxofones com o grande Zé Bodega. Suas composições tornaram-se então conhecidas, ganhando diversos concursos, até que montou a sua própria orquestra.

 

* Ternura - Gravado por K-Ximbinho e Zé Bodega no disco Saudades de um Clarinete (Eldorado,1980) 

 

Severino Araújo - Nascido em uma família de músicos, foi apresentado a música logo cedo, aprendendo vários instrumentos de sopro, entre eles o saxofone. Por fim se aperfeiçou na clarineta. Seu pai, mestre de banda, foi seu principal incentivador e professor. Severino foi bastante influenciado no jazz pelo trabalho de clarinetistas americanos como Benny Goodman e Artie Shaw, e suas grandes Orquestras. Depois de passar por várias orquestras de sua cidade natal, Limoeiro, ele foi para João Pessoa, onde entrou para a orquestra da rádio Tabajara como primeiro Saxofonista e Clarinetista. Após o fechamento da rádio ele liderou a orquestra que então passou a atuar com o nome de Tabajara de Severino Araújo. Como arranjador e Band Líder, gravou inúmeras músicas, entre as quais se destacaram Espinha de Bacalhau e Saxomaníaco. A orquestra Tabajara ainda em atividade é a mais antiga do Brasil. E, apesar de ter sofrido desde sua criação uma forte influência do Jazz americano, tanto na formação quanto nos arranjos, a Tabajara só tocava chorinhos, sambas e frevos, com uma sonoridade ao mesmo tempo inovadora e característica. Na Tabajara passaram excelentes instrumentistas, como K-Ximbinho e Zé Bodega, irmão de Severino, assim como o cantor Jamelão, grande intérprete de samba.

 

* Espinha de Bacalhau - Gravado por Severino Araújo e Orquestra Tabajara (Continental, 1960) 

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