
Entrevista concedida ao jornalista Alexandre Nadai dia 08/12/2005
Carioca da Glória, criado no Jardim Botânico. Rafael Velloso aprendeu a tocar sax sob a influência dos
ídolos do jazz, passeou pelo reggae pop do extinto Dread Lion e hoje comemora 1 ano
com seu projeto atual: "Sax Chorando". Em entrevista à DNadai Comunicação, Rafael
fala um pouco sobre a sua relação com a música e as várias faces do sax.
DNadai - Quando começou a paixão pelo choro e samba?
Rafael - Comecei pelo choro. O
primeiro contato aconteceu na faculdade, com um professor de violão popular, chamado
Sérgio de Pinna. Além das aulas, o mestre incentivava os alunos a formar grupos de
choro. Antes, eu tocava jazz, reggae - no Dread Lion - e ví no choro algo bem
diferente. Além disso, a minha ex-mulher era fanática por samba e me
ajudou nesse sentido. A paixão pelo samba era tanta que nos casamos numa roda de
samba, em Santa Teresa.
DNadai - Como foi essa passagem do jazz
e do reggae para o choro e a chegada até o "Sax Chorando"?
Rafael - O choro é uma forma de você ver a música instrumental de maneira bem
brasileira. Eu estudava muito o jazz. Para mim é a melhor música que para quem toca sax.
O problema é a barreira cultural. Acho que tem músicos brasileiros que tocam
jazz bem, mas não tive esse aprendizado. Com o choro, eu consegui descolar
uma linguagem brasileira no saxofone. Eu queria ir para os EUA estudar, mas
faltou grana. Além disso, hoje em dia , o choro tem uma penetração, no Brasil, maior
do que o jazz.O reggae foi uma coisa que eu toquei desde o início. Serviu para me
dar experiência no palco. Apesar de não conhecer muito o reggae, fazia os
arranjos, mas sempre pensando no lado brasileiro do reggae.
DNadai - O Dread Lion teve uma certa projeção. Chegou a conhecer
a fama?
Rafael - O reggae eu não larguei. A banda acabou porque cada
um resolveu investir nos projetos pessoais. O pessoal ficou velho e começou
a querer ganhar dinheiro. Conseguimos projeção, entramos na Sony e vendemos 15 mil
cópias. O segundo cd, lançamos de forma independente. Mas, se voltasse, com
certeza eu voltaria a tocar, porque a banda era composta por amigos de infância.
DNadai - Como surgiu o projeto "Sax Chorando"?
Rafael - Começou no mestrado. Entrei no mestrado para fazer uma pesquisa, depois a coisa
foi partindo naturalmente pro lado comercial.
DNadai - Qual o
resultado depois de 1 ano do projeto no Brasil?
Rafael - O resultado foi muito
bom, já que o projeto é independente. Eu consegui dois lançamentos
muito bons no Rio de Janeiro, que é o local onde tenho mais contatos. Participei
da "Semana Nacional do Choro",onde fiz uma palestra, e participei de outros
eventos do gênero. Depois chamei a Simone Lial para uma parceria e nasceu o Sax
Sambando. Gostaria de ter saído mais do Rio de Janeiro. Agora, no fim do ano, no
show de comemoração, chamei músicos que eu admiro muito, como a Dani Spielmann,
que fez um trabalho muito parecido, de pesquisa, em que a gente viu os projetos
como parceria e não como concorrência.
DNadai - Como o projeto foi
recebido na Europa?
Rafael - Ir para Europa foi
uma surpresa. Desde o começo do ano, eu queria ir pro "Ano do Brasil
na França", mas era muito difícil, principalmente
sem patrocínio. No entanto, surgiu a possibilidade de ir para um
Congresso sobre música na Europa, onde os organizadores pagariam a passagem. Então,
comecei a entrar em contato com alguns amigos e as coisas foram acontecendo.
Cheguei em Roma, no Congresso, e fiz alguns shows, depois fui para Veneza, onde
toquei com músicos locai que não falam português , mas tocam choro. Na Alemanha,
toquei algo mais pop , com um amigo do Dread Lion, Daniel. Em Paris, toquei no
Clube do Choro. Encontrei muitos músicos brasileiros na França. O francês tem
muita técnica, pois eles pesquisam muito, o que compensa a falta do suingue
brasileiro.
DNadai - Na Europa, dá pra viver de música?
Rafael - Com certeza dá. O governo francês cria condições para que os
músicos vivam. Se você faz determinado número de shows no ano, ganha uma pensão.
É difícil pensar assim no Brasil, mas funciona desse jeito lá. È difícil o
músico brasileiro se firmar, mas se for bom, dá pra viver de música. O francês é
músico profissional ou não. Não dá para ter outra atividade.
DNadai - Quais os próximos projetos?
Rafael - Fiz mil cópias
do Sax Chorando. São as únicas. Não vou fazer mais. Agora, quero fazer algo com
a Simone Lial, um samba com jazz,algo do tipo. A gente ainda não definiu como
vai ser, mas vai ser a continuidade do projeto Sax Sambando.